quarta-feira, 31 de dezembro de 2008

HERNANES: REVITALIZANDO O MEIO-CAMPO

É com muito prazer que falo sobre HERNANES do SÃO PAULO hoje.
Confesso que nutro um preconceito enorme contra os carregadores de piano, tão fundamentais na concepção de vários treinadores no cenário do futebol.
Hernandes é um meio-campista diferenciado.
A começar pelo fato de ser ambidestro. Isto por si só já garante a possibilidade de virar o jogo para qualquer lado com precisão e rapidez, mas ainda devemos observar o fato de que este jogador é capaz de conduzir indiferentemente a pelota com a esquerda ou com a direita.
Podemos contar nos dedos os atletas no atual futebol nacional que são capazes de fazer tal coisa. Podemos contar nos dedos o número de atletas ambidestros neste mesmo contexto.
Verificamos com pesar a proliferação de carregadores de piano de pouca ou quase nenhuma habilidade. Sua função primordial é conter o ataque adversário custe o que custar. Nota-se facilmente a dificuldade que os mesmos apresentam no que se refere ao controle, condução e passe, fundamentos básicos para a prática do esporte.
A atual seleção brasileira é fruto desta concepção lamentável e quando vejo o argentino VERÓN jogar, ele que ocupa a mesma posição de GILBERTO SILVA, sinto uma tristeza imensa.
Felizmente surge este HERNANES do SÃO PAULO para mostrar que nem tudo está perdido.
Este jogador me lembra o nosso saudoso FALCÃO e certamente tem vaga nesta seleção de futebol questionável.

JOÃO AYRES.

O CANHOTO

TOCANDO A BOLA:FUTEBOL PRA QUEM GOSTA.
O CANHOTO
1975-1980
Sempre admirei o canhoto. É pistoresco o fato destes mestres da bola tenderem a cair ou a gingar sempre para o lado esquerdo.
O marcador sabe disso, mas os especialistas falam ou conjecturam acerca da tal explosão da perna, ou seja, o movimento em geral é muito rápido e não dá para ser bloqueado facilmente.
Eu me lembro de vários canhotos especiais, dentre eles o Edu do Santos, que ia à linha de fundo como quem vai passear na praia.
Não era só a velocidade da perna esquerda do homem que impressionava. Era o fato de que ele conseguia esconder a mesma de tal maneira que o marcador sofria para encontrar literalmente o momento de colocar a sua perna para bloquear o cruzamento ou o chute, quase sempre, com endereço certo.
A condução deste ponta era algo admirável. Pelota bem colada ao pé e muita, mais muita precisão. Além disso, quando ia pra cima do marcador, costumava manter a bola correndo entre os dois pés. Isto complicava ainda mais a situação, pois criava a ilusão de que o ponta era ambidestro. Ele empurrava ainda a bola para frente e a puxava quase que simultaneamente, provocando o movimento reflexo do marcador e ganhava já meio corpo ao puxar a mesma para si. Era realmente infernal.
Uma imagem que me marcou muito foi a de um gol marcado por EDU num jogo contra um clube do qual não me recordo o nome. Este gol foi apresentado no programa GOL O MELHOR MOMENTO DO FUTEBOL.
O ponta veio costurando pelo meio, ocultando a bola e partindo em direção ao zagueiro que estava na sobra. O ponta dá uma trava e tira meio mundo da jogada. O goleiro se mantém bem colocado esperando uma pedrada. O ponta olha e mete a bola literalmente no ângulo esquerdo do infeliz que nada pode fazer senão olhar a criança balançar levemente as redes. Um toque de gênio sem força, mas com o jeito de quem sabe o que fazer com a divina.

MAIS EDU:
O homem estava jogando no Maracanã contra a seleção boliviana, venezuelana ou sei lá.
Estádio cheio, o povo esperando literalmente um show dos astros em campo.
Recebeu limpo na esquerda e veio conduzindo a bola trocando de pé , levando metade do time invadindo a área e cruzando rasteiro. Ninguém chegou a tempo, mas as palmas para a jogada foram inevitáveis.
EDU era um tipo de ponta que tinha que ter dois marcadores em cima. Mesmo o lateral experiente, o tal que esperava a hora certa para dar o bote e mantinha distância, tinha dificuldades devido à fartura de dribles apresentados pelo ponta.
Embora a tendência de saída do jogador fosse sempre para a esquerda, as tramas de letra, o elástico com o toque final para frente na perna direita e a elevação da bola a qualquer momento, as chamadas embaixadas, todo este controle tornava difícil a vida dos homens que tinham a ingrata função de parar de qualquer jeito o ponta.
Vários laterais, como Forlan, Nelinho e Eurico penaram quando da marcação do mesmo.

EU E EDU:
Durante um bom tempo, eu tinha lá meus dezesseis anos, procurei imitar o artista nos dribles e nos chutes sempre certeiros.
Tive a sorte de encontrar um mestre na praia que me ensinou que o grande segredo de quem é destro é saber chutar com as duas pernas.
Este senhor me mostrou este caminho e desde muito cedo já chutava com a esquerda e com a direita do mesmo jeito, em que pese o fato de minha perna de origem ser a direita. Disse ainda que deveria tentar sempre conduzir a bola com a perna esquerda, alertando -me no sentido de que teria que insistir bastante se quisesse chegar lá.
Passei um bom tempo a jogar só com a referida, e no princípio me senti um tanto inseguro. Quando fui à linha de fundo pela primeira vez, veio a tal confiança que me foi passada por aquele Deus Negro, meu ídolo durante tantos anos.
Meu cruzamento foi preciso e alcançou a cabeça do atacante que meteu a bola no canto oposto sem defesa para o goleiro. O jogo prosseguiu e eu sempre pensando em conduzir a bola do jeito de meu ídolo, mas o mestre da praia resolveu interferir e abrir novos horizontes em plena batalha na segunda etapa novamente.
Estávamos vencendo aquela parada dura e o time adversário nos pressionava bastante.
Eu ainda bem magrinho, no meio daqueles galalaus, recebi a bola pela direita e, como de costume, fui caminhando mais para o meio para encontrar um ângulo apropriado para o chute. A defesa estava em cima de mim e ,repentinamente, acho mesmo que o mestre apareceu na minha frente e pediu para que eu fizesse isto, dei um corte para o lado direito tirando dois zagueiros da jogada.Se batesse de perna direita, até então a tal perna boa, seria travado pelo líbero que vinha com tudo. Mandei então um balaço de esquerda indefensável e fiquei impressionado com a precisão, pois não se tratava de um arremate de um canhoto que por acaso deu certo, mas de um arremate de quem sabe bater com as duas sem se desequilibrar.
Um outro alguém muito especial estava a vibrar à beira do campo. Era o mestre que me ensinara este segredo mais do que eficaz. Chamava-se Lula e foi fundamental na minha formação.
Este simpático senhor me ensinou a posicionar a perna na hora do chute, no caso a esquerda.
Ele costumava pedir para que eu ficasse meio de lado e olhasse fixamente para a bola. Eu corria e mandava ver com toda a força possível. A princípio a coisa saía meio desengonçada, mas com o tempo fui pegando o jeito.
Pior mesmo era conduzir a bola em velocidade e ter que dar uma meia trava e virar o jogo para o outro lado de primeira. As primeiras vezes quase fui para o chão quando girei o corpo e a gozação era geral.
Não me fiz de rogado e continuei a minha luta em silêncio. Cheguei lá e termino este capítulo com uma tese que deve gerar lá suas controvérsias:
O canhoto é canhoto e pronto. Não precisa ter as duas pernas quando é gênio.
O destro que sabe chutar, conduzir e driblar com as duas pernas tem já meio caminho andado para o sucesso absoluto.

JULIO CÉSAR, O ENTORTADOR.
Quem viu este gênio jamais se esquece do chapéu que ele deu no lateral direito Alves do Atlético Mineiro, em pleno Maracanã., naquele amistoso do ano de 1979.
Este é um drible típico de futebol de salão e este canhoto maravilhoso estava iluminado naquele dia. Dominou a criança e com um toque de baixo para cima, num espaço mínimo, colocou a bola por sobre a cabeça do atônito lateral que ficou a ver navios. Era uma noite especial com a presença do Rei Pelé, jogando uns preciosos minutos com a camisa do Mengo, com a dez cedida gentilmente pelo galinho que meteu três na goleada de 5X1 imposta pelo Flamengo.
Julinho fez de tudo um pouco. Seus dribles, sempre muito objetivos, assim como sua espantosa velocidade arrasaram o sistema defensivo do adversário. Bola grudada ao pé, metendo caneta em todo mundo, elásticos dos mais variados e ainda toques magistrais em tabelas arrasadoras.
Tratava-se de um jogador literalmente imarcável.
Vários laterais tiveram que apelar para os chutes e pontapés para tentar parar o nosso glorioso Julinho. Orlando Lelé que o diga.....

O FLAMENGO DE ZICO E O MANÉ JULINHO.
Zico sempre foi craque. Era o Pelé e o nosso Julinho entortador, o Júlio César era o garrincha, o mané que não vi jogar.
Como a maioria dos aficcionados por futebol da minha geração, não vi o gênio de pernas tortas em campo, mas o que vi nos tapes foi o suficiente para me convencer de seu indiscutível talento mais do que diferenciado.
O nosso entortador costumava pintar o sete em campo levando a galera à loucura.
Zico abusava da inteligência com dribles plásticos e lançamentos precisos.Era bonito de ser ver aquele Flamengo harmônico em campo.
Quando o nosso canhoto recebia a bola já havia pelo menos dois ou três na marcação dele.
Era tudo muito simples para o gênio. Ou ele saia costurando e literalmente cortando todo mundo para o meio, esticando a bola num toque curto para Zico e companhia, ou ele partia em direção à linha de fundo pulando sobre a pelota.
É interessante observar que quando a coisa apertava, ele com um toque magistral de trivela tocava a bola para si mesmo, vale dizer, tratava-se de um meio balão, pois que a
criança costumava passar pelo lado do oponente.
A maioria dos passes deste atacante eram de três dedos e tinham aquele toque de surpresa, do inusitado que se espera de um autêntico craque.
Aquele Flamengo, campeão do mundo no ano de 1980, deixou saudade, muitas saudades.
Quem não se lembra do passe do mestre Zico para a conclusão do raçudo atacante Nunes naquela decisão do mundial de clubes?

JOÃO AYRES.